Doentes.net

18 Janeiro 2006

Gays que discriminam Gays

Você que está lendo esta coluna já ouviu essa frase:
Viado é tudo afeminado.
Ou esta:
Viado merece porrada.
Ou esta:
Viado merece morrer.
Ou esta:
Se eu tivesse um viado na minha família, dava uma surra nele.
Ou esta:
Puta e viado é tudo a mesmo merda.
OU ainda esta:
Prefiro ver um filho morto que um filho viado.
Etc...

Claro que você deve estar pensando que essas frases foram ou são ditas por homofóbicos (pessoas que têm fobia por homossexuais, ou que têm ojeriza por gays ou que tem pavor a gays...)

Pensar assim é correto. Os gays sofrem inúmeras discriminações, principalmente quando assumem publicamente a sua homossexualidade. E existem pessoas mais sacanas ainda que querem destruir os gays que não aceitam o seu assédio, porque pensam que por ser gay o cara ou a mulher tem necessariamente de sair com qualquer um. Bom, desse tema tratarei em outra data. Mas hoje eu quero enveredar por outro caminho.

Será que existe preconceito dentro da própria comunidade gay?
E existe comunidade gay?
Bom, posso afirmar por várias fontes que sim.
As duas respostas são positivas.

O interessante é que não deveria haver, não é?
Principalmente que nós tratamos aqui de denunciar ou constatar fatos preconceituosos contra as minorias: gays, negros, putas, travestis e outros seres marginais ou considerados marginais pela sociedade. E nem pensamos que as próprias comunidades, nesse caso dos gays são um reflexo às vezes até piorado da marginalização, da discriminação e do preconceito sociais.

Mas como é isso? O que eu quero dizer com isso?
Quero dizer que gays criticam ou marginalizam outros gays?

Claro. E às vezes eles são mais impiedosos, filhos da puta e sacanas que os próprios ditos não gays.

Eu citei logo no início desse texto, as frases usadas por homofóbicos.
Está bem.
Mas se eu digo que os homossexuais podem autodestruir-se, Que frases eles usam?
De que maneira eles discriminam-se?
Quais seriam as razões?

Então eu explico a você.

Vamos começar explicando que quando defendemos os direitos de qualquer cidadão discriminado, nós sabemos que esses mesmos cidadãos têm seus defeitos e também suas qualidades como qualquer ser humano. Óbvio.
Então por isso mesmo que eles podem também agir como qualquer outro membro da sociedade em relação à sua conduta social.
Mas dentro dos ambientes homossexuais e dentro principalmente dos relacionamentos sociais ou íntimos dos gays, toda a carga de preconceito imposta pela sociedade tem reflexo direto ou indireto nas relações homossexuais de uma maneira totalmente exacerbada e multiplicada várias vezes.
Os abusos sexuais passados por eles. Os casos de violência familiar por irmãos , pelos parentes, por policiais. As demissões de trabalhos por conduta gay. Os preconceitos raciais sofridos. A dificuldade de obtenção de trabalho por travestis, pelos gays negros, pelos mais femininos, etc... os fazem guardar inúmeros rancores e mágoas que eles despejam, cada um a sua maneira nos outros gays mais fragilizados ou mais indefesos ou mais pobres.
E numa série de ocasiões os homossexuias reproduzem consciente ou inconscientemente aos seus conhecidos, amigos ou amantes tudo o que passaram de sofrimento durante sua vida.

Existem muitos exemplos disso e que são até comuns. E muitas vezes causam conflitos sociais não muito diferentes dos causados pelos não gays aos gays. E inclusive causam dúvidas em relação a existir ou não existir uma causa gay única, já que a “micro-sociedade gay” é pluralíssima e está muito longe de ser o Mar das Meninas Vestidas de Rosa.

E como e com quem vemos isso?

Podemos citar vários exemplos:

Os Barbies (gays musculosos e de corpo definido) falam que detestam bichas magras e afeminadas. E ainda dizem que não têm nada contra mas que só gostam de homens e machos como eles! Alguns até são lutadores e dão porrada nas bichas explícitas, segundo eles, para não quiemar o filme deles!

Os Gays Fashion (gays que adoram roupas de marca e caras) dizem que detestam bicha pobre ou que se vestem mal e estão fora do padrão deles. Normalmente a frase é “Bicha o Ó” (aquela que não presta é marginal e nesse caso não presta porque está fora de moda)

Os Magros masculinos ou mais femininos dizem que destestam bicha gorda. “E que preferem morrer a transar com as gordas”.

Os Gays novos falam mal das “Bichonas velhas” como se nunca fossem ficar velhos.

Os Gays Manos (esses preferem não ser chamados de gays porque afinal de contas também comem mulher, claro.) dizem que só os gays passivos que são viados, eles não são.

Os Gays da Noite (representados aqui, todos os tipos noturnos) unem-se em grupos para ficar a noite inteira denegrindo e criticando todos os que passam, ao invés de divertirem-se.

Os Gays Ricos não gostam de se misturarem aos pobres. Claro porque obviamente existem classes sociais gays: riquíssimos, ricos, os de classe média, os quase podres e os muito pobres.

E para surpresa de alguns e confirmação de outros os campeões de discriminação e por isso mesmo muitas vezes os mais revoltados e que muitas vezes, formam o seu próprio gueto dentro do gueto, são os travestis e os gays negros.

Eu trago uma atenção especial a eles, porque não só na sociedade como um todo eles são marginalizados e ridicularizados.
Dentro dos ambientes gays tanto os negros quanto os travestis são discriminados de várias formas:

Sendo barrados em vários lugares por serem negros ou travestis;
Sendo excluídos de turmas, pela vergonha que outros gays têm em estar do lado deles;
Sendo discriminados em Shoppings por gays que trabalham nas lojas;
Sendo discriminados em Igrejas por padres ou pastores gays, mas que o são às escondidas ou que aceitam gays brancos mas não os pretos e “muito menos as aberrações que são os travestis!”
Sendo discriminados em conversas de todos outros subguetos gays, que dizem por exemplo que são gays liberais, não têm preconceito, não têm nada contra, mas a única coisa que eles não gostam e têm horror e raiva são os “Dunduns” (gays negros) e as “Travecas” ou “Traveconas” e que jamais teriam nada com eles, nem amizade.

Bom. Você que está lendo que talvez saiba disso ou que não, só tenha sabido agora, pode me dizer e perguntar: Gays são um reflexo da sociedade não gay pois essa também é assim, mas onde nós vamos chegar com essas constatações?

Eu quero fazer uma reflexão em cima do que eu relatei.
Eu sei que nós todos temos o livre arbítrio e que uma sociedade como é a nossa, brasileira, é formada basicamente de indivíduos que valorizam o externo em detrimento do interno. E que somos um país de que a formação de cidadania é para poucos. E que podem dizer que a época atual é assim mesmo, que nós não estamos em 1970.(acha que era até pior para os gays). E que tudo isso é assim mesmo. E que até mesmo essas considerações que eu faço aqui podem parecer absurdas, ingênuas e anacrônicas. Mas mesmo assim eu quero que as pessoas reflitam se não seria melhor se tivéssemos outro tipo de conduta.

Será que com o mundo tão desestruturado, não seria melhor que as pessoas tivessem respeito umas pelas outras?
Será que não seria mais interessante que nós pudéssemos olhar um pouco dentro do outro?
Será que não se pode deixar de lado, ao menos às vezes, o sofrimento, o preconceito e as feridas de lado e prestarmos mais atenção no próximo?
Será que gays negros, travestis, magros. gordos, fortes, fracos, amarelos, velhos, moços, lésbicas não podem ser unidos ou ao menos solidários?

E já entrando em outro assunto que tocarei outro dia, Será que você não despreza no outro aquilo que existe em você e fica medo que os outros descubram?
Ou aquilo que você tem de fraco e que percebe no outro por isso quer destruí-lo?
Ou ainda será que alguém que realmente se ama quer mal aos outros?
Ou aquele que está feliz com o seu corpo, com a sua mente ou com a sua vida não consegue aceitar os outros como são?

rag.doll, adora Hello Kitty

09 Janeiro 2006

Ai que mêda

Desde o início do ano a Rede Globo se mostrou muito dedicada a exibir como uma pessoa pode acabar sendo massacrada por um buraco gigante assassino no meio da BR-101. Famílias inteiras arruinadas por falhas no asfalto quando o carro do papai, que voltava pra casa no Natal, virou um monte de metal retorcido.

Aí as crianças são obrigadas a voltarem às aulas e dizerem que papai foi engolido pela falta de manutenção do governo.

Esposas vão chorar e chorar, dormir e dormir. Todos os dias depois da morte do marido elas ficam horas sentadas na mesa da cozinha olhando pro vazio. Elas esquecem de lavar as roupas das crianças. As crianças são obrigadas a ir para a escola usando roupas sujas cheias de desodorante por cima. Ocasionalmente, mamãe não suportará toda angústia e engolirá 72 capsulas de fenobarbitais.

Não, nada disso vai acontecer, mas a Globo acha que vai ser assim.

Desde uns anos atrás, a Globo insistia que o papai seria morto por uma bala perdida. Mamãe não cometeria suicídio porque antes de ter a chance ela sofreria um sequestro-relâmpago e morreria no cativeiro de inanição. As crianças não ficariam orfãs porque um carro roubado atropelaria todas elas na volta do colégio. Ou isso ou um dos amiguinhos de sala iria balear eles com a arma do pai.

Toda essa sugestão de que algo terrível estava na eminência de ocorrer, todo esse ambiente de terror suspenso, tudo isso teve um efeito nas pessoas. Elas não perceberam na hora, mas percebem agora quando olham para as garagens de suas casas. Seus carros blindados com 75mm de kevlar que nunca viram um tiro na vida. Eles custaram R$ 80.000,00 para virarem esses tanques, mas agora os donos se perguntam "Porque eu fiz isso?".

Os dobermanns treinados em Israel para desabilitarem um elemento armado em menos de 5 segundos e capazes de identificar os carros dos donos no escuro: R$ 12.000,00. O sistema fechado de câmeras e o alarme silencioso com detecção de movimentos ligado à polícia: R$ 20.000,00. Os guarda-costas parrudos com certificado da SWAT americana: R$ 5.000,00 por mês. Os microchips instalados no corpo dos seus filhos através do ânus enquanto eles dormiam, e no dia seguinte acharam que tiveram um pesadelo, que eram capazes de detectar eles em todo território nacional e descobrir o cativeiro em que estavam: R$ 2.000,00, mais R$ 500,00 pela instalação e R$ 500,00 de mensalidade.

E nenhum deles nunca viu serviço.

Os guarda-costas, e talvez até os dobermanns, devem se perguntar porque um babaca de classe média gastou tanto dinheiro pra se proteger. Se proteger de quem? Só porque a Globo disse que ia acontecer?

Agora o Jornal Nacional insiste em dizer que ninguém pode se movimentar pelas estradas do Brasil sem capotarem 7 vezes o carro.

Desde sempre tudo tem sido assim. Na religião Deus vai punir os infiéis, os pagãos, os que gozam foram, os que usam camisinha, as que usam pílulas, os que doam orgãos, os que apoiam as pesquisas da célula tronco. Jesus iria voltar no ano 2000 para o apocalipse. Depois seria 2001, porque 2001 é quando o novo milênio começa. Agora dizem que vai ser em 2012 quando o calendário Asteca termina. Sempre essa sensação de que o mundo vai acabar. Sempre a sensção de que uma bala vai atingir sua família.

Na escola os alunos tem medo de repetir de ano. Porque se isso acontecer: 1) você é um fracassado sem futuro, 2) você é burro, 3) os seus pais vão te odiar, 4) você vai se separar da sua turma.

A revista Superinteressante diz que nós poluímos tanto o planeta que agora a mudança de temperatura global é nossa culpa. As neves do Kilimanjaro vão derreter porque você ia trabalhar de carro ao invés de ir de metrô. As geleiras estão derretendo por causa do CFC das latas de spray de desodorante, e quando o nível dos oceanos aumentarem e sua casa ficar debaixo d'água a culpa vai ser sua.

Cada um tem um motivo para infligir o medo. A igreja precisa manter pessoas fiés (ou pagando o dízimo). A Globo precisa que você continue assistindo o Jornal Nacional para se atualizar na arte de sobreviver a um buraco. Os hippies da Superinteressante querem que você pare de jogar pilhas no rio e começe a amar as árvores. A escola quer que você decore toda a matéria, acerte a prova, esqueça tudo, passe de ano e eles fiquem bonitos na hora de prestar contas com o MEC.



O medo é o segundo maior motivador humano, é o fator que faz com que pessoas tomem determinadas atitudes. Que comprem, que vejam, que reciclem, que votem, que vão à igreja.

O medo é tão eficiente que Hitler levou uma nação inteira ao extermínio de judeus por causa dele. O medo levou as pessoas a confiarem no Mussolini. O medo de que um ataque terrorista poderia acontecer a qualquer momento fez com que as pessoas votassem o Bush.

O medo é o segundo maior motivador humano. Para a felicidade de nós, só perde para o desejo. E o maior desejo de todos deve ser o sexual.

Então, pessoas que infligem o medo, me ouçam.

Diretores de escola, me ouçam. Ao invés de ameaçar as crianças repetentes, ofereça sexo. "Meninos e meninas, quem não passar de ano vai ser uma tristeza. Mas não se preocupe, vocês vão continuar vendo seus amigos na hora do recreio, vocês vão ser profissionais competentes, adultos felizes, e seus pais vão te amar do mesmo jeito. Mas quem passar de ano vai ter tudo isso e ainda vai poder trepar de graça". Aí você vai ver quantas crianças vão repetir (nenhuma).

As igrejas podem espalhar a palavra: "Jesus não vai voltar para nos julgar. Todos vamos para o paraíso. Mas aqueles que fizerem o bem vão para a salinha VIP de São Pedro junto com as modelos contratadas".

A Globo poderia fazer a mesma coisa. Ela deveria manter aquele suspense no ar... será que sexo vai ser mencionado de alguma forma? Será que o William vai rasgar o paletó e possuir a Fátima ali na bancada do Jornal Nacional? Será que vai aparecer uma matéria sobre uma praia de nudismo sem nenhuma relevância a não ser mostrar corpos desnudos? Será que na previsão do tempo de hoje a Cláudia Bomtempo vai estar com uma blusa larga sem sutiã por baixo e com o ar-condicionado do estúdio no máximo?

As pessoas que dizem existir muito sexo e/ou menções ao sexo na TV e música deveriam ir dar meio hora de cu. Eu prefiro a Kelly Key desafinando sua melodia de duplo sentido-onanística-fálica "Baba, Baba" do que ter nas paradas de sucesso MC Hitler feat. Mussolini in Da Hood.

A nossa geração já sofre com muito medo. Medo de aceitação da sociedade. Medo de cair na mesmisse. Medo do conformismo. Medo de que o futuro deixe de ser um projeto vida pra virar uma ameaça ao seu presente. Medo dos seus pais.

No fim das contas eu acho que tudo vai terminar bem, porque a partir de amanhã, terça-feira, volta à sua TV o espetáculo de desejos reprimidos vindo à tona, o show de fim de noite da sugestão de sexo embaixo do edredon, a sua meia hora diária de bundas perfeitas em biquínis minúsculos. Amanhã volta ao ar o Big Brother, e pelos próximos três meses toda uma geração vai poder ter uma ereção livre de culpa. Woohoo! Vamos todos cantar de felicidade com o Ultraje a Rigor:

Sexo! Como é que eu fico sem sexo!
Eu quero sexo! Me dá sexo!
Sexo! Como é que eu fico sem sexo!
Eu quero sexo! Vem cá sexo!

Voltei prá sala, vou ver o jornal
Quem sabe me deixam ver a situação geral
E é eleição, é inflação, corrupção e como tem ladrão
e assassino e terrorista e a guerra espacial!
Socorro!

Sexo! Como é que eu fico sem sexo!
Eu quero sexo! Senta Sexo! Solta Sexo!


Sick Boy acha que as pessoas devem fazer amor e não guerra. Mesmo esse sendo um slogan piegas da era hippie, ele realmente acha isso